A Raiz da Ansiedade: O que Jesus nos ensina em Mateus 6?

 


Este versículo só ganha pleno sentido quando prosseguimos e meditamos nos trechos anteriores e seguintes, que tratam das riquezas, do olhar mau, de Mamom e da preocupação (ansiedade) em relação às necessidades básicas da vida.

Muito Além da Visão Física

Os “olhos”, mencionados no versículo 22, representam muito mais do que o olho físico ou o ato de enxergar no sentido ocular. Os olhos como "candeia do corpo" apontam para um olhar com dimensões espirituais e emocionais. É um olhar carregado de significados, sentimentos e espiritualidade.

Esse olhar, descrito por Jesus, é aquele que interpreta o que se enxerga, que atribui sentido ao que se vê, depositando ali criticidade, julgamento e opiniões.

Assim, os olhos a que Jesus se refere vão além do enxergar orgânico, funcional ou biológico. São, sim, os olhos físicos, mas trabalhando em conjunto com o olhar da mente, com as nossas interpretações e imaginações.

Desse modo, na doutrina de Jesus (e eu afirmo que na psicologia também), quando se enxerga ouro, prata e pedras preciosas, não se vê apenas metais reluzentes. Enxerga-se riqueza, fartura, luxo, poder, a superação da pobreza, a vitória contra a miséria — e, muitas vezes, a cobiça.

"Nosso olhar é carregado de emoções. O que se vê, se pensa; e o que se pensa, se sente."

O Que Define o Seu Tesouro?

A partir dessa compreensão, fica mais fácil entender o versículo 21. O “tesouro”, aqui, é aquilo que os olhos físicos e mentais enxergaram e, ao fazê-lo, desejaram, cobiçaram e amaram.

As coisas, os objetos, as circunstâncias, os lugares e as pessoas nada são se não os desejarmos ou amarmos. O que é tesouro para um pode não significar nada para outro. Para uma pessoa, o tesouro é a família; para outra, o trabalho; para uma terceira, o dinheiro que se ganha nesse trabalho.

Daí a afirmação de Jesus: “onde estiver o vosso tesouro…”

Nesse trecho, as escolhas e decisões estão abertas, evidenciando a presença clara do livre-arbítrio pessoal. Ou seja, cada um tem o tesouro que quiser e ama o que decidir amar, sendo exigido apenas que assuma a responsabilidade pelas consequências dessa escolha. Se alguém amou o dinheiro, por exemplo, arcará com os desdobramentos desse amor.

O Processo de Valorização e a Prisão do Coração

O "tesouro" significa aquilo que se ama, o que se valoriza na vida, aquilo a que damos importância. É o que elegemos como prioridade existencial. Assim, onde estiver “isso” que decidimos honrar e agregar valor, ali estará o nosso coração.

O interessante é notar a ordem das coisas:

  1. Primeiro, valorizamos: depositamos importância no objeto, conferindo-lhe o status de “tesouro”.

  2. Depois, amamos: colocamos o nosso coração nele.

Só é tesouro se tiver valor pessoal e importância subjetiva para o indivíduo. A forma como Jesus descreve sugere que o coração é atraído e acaba ficando refém: “aí estará também o teu coração.” Tenho a impressão de que, neste texto, o coração está, literalmente, "preso" ao tesouro.

O Caminho Até a Ansiedade

Diante disso, Jesus desenvolve um raciocínio que evolui à medida que avança, formando uma cadeia de sentimentos e ações:

  • 1. Tesouros (O acúmulo na terra)

  • 2. Amor aos tesouros (O coração apegado)

  • 3. Olhar mau (A cobiça e a distorção da visão)

  • 4. Mamom (A devoção e servidão às riquezas)

  • 5. Ansiedade (A preocupação excessiva com a manutenção de tudo isso)

Nesse texto, Jesus revela de forma profunda e atemporal a raiz da ansiedade disfuncional: o amor aos tesouros deste mundo.


Márcio Oliveira 
Casado com Eliane e pai de Lucas e Yasmin.
Psicólogo, Psicanalista. Psicopedagogo, Terapeuta Familiar e Pastor



 


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